
Três meses após ter reanimado um recém-nascido naquela que é a maior comunidade indígena do Alto Solimões (a história está neste post), retornei com o Exército para mais um dia de ACISO em Belém do Solimões.
Foi o sargento da banda de música que deu a ideia: “Que tal dar uma passada na casa e ver como está aquele bebezinho?” Antes de partir, procurei me informar sobre a evolução do caso com o agente de saúde do bairro, mas o mesmo não sabia da situação atual da família.
Partimos, então, e logo pensei no que poderia ter acontecido com o recém-nato desde que deixamos Belém, na primeira ACISO. Teria falecido ou sobrevivido? Se sobrevivera, teria sequelas ou seria completamente normal? Chegamos finalmente em frente ao velho casebre de madeira. Às 7 horas da manhã, o silêncio ainda dominava o quarteirão – os índios da região costumam acordar tarde, após às 8 da manhã.
Não sei se eram as toalhas penduradas no varal, o cheiro de farinha torrada ou o clima geral de tranquilidade, mas minha sensação era de otimismo. “Boas notícias virão”, pensei, lá no fundo, contrariando qualquer projeção mais realista.
Após bater palmas, um senhor já com seus 40 e poucos anos – com aparência de 60, graças a rugas acumuladas com anos de trabalho debaixo de sol forte – recebe-nos. Explicamos a história toda: a visita com a ACISO há seis meses, o parto dramático, o risco da decisão da família de não levar o bebê urgentemente a um hospital. Como resposta, somente uma expressão de confusão e uma frase:
“Aqui não mora nenhum bebê.”
Mais simples, impossível.
Surpreendente? Não. Decepcionante? Absolutamente.
O senhor então nos contou que o bebê, seu neto, conseguira sobreviver somente por um dia. Pouco antes de falecer, a família havia mudado de ideia e ainda tentara providenciar um barco para transportá-lo até o hospital em Tabatinga, sem sucesso. Sem mais detalhes, agradeceu nosso atendimento e a visita, voltando a sua casa.
Impossível não pensar no que teria acontecido se a família tivesse concordado em levar a criança a um hospital, mesmo que fosse pouco provável um desfecho alternativo. A distância entre o brasileiro comum e o indígena é evidente nessas horas, e, seja por falta de recursos ou por crenças essencialmente diferentes, a sensação é de que vivemos em mundos opostos.
Enfim, era hora de parar de pensar no futuro do pretérito e começar a agir no presente – afinal, em poucos minutos chegaria um helicóptero com um general e uma equipe da Rede Globo para acompanhar a missão…
Mundos opostos, de fato.
Selva!
